Muitos jogos famosos lançados por grandes empresas estrangeiras têm trechos criados no Brasil sem que o público saiba, e Murilo Moura Alencar, Tech, People & Game Strategist e cofundador de um estúdio de games, explica que esse movimento discreto está mudando o perfil da indústria nacional. O modelo tem nome, desenvolvimento externo ou codesenvolvimento, e consiste em estúdios que produzem arte, programação, fases ou testes para projetos de outras empresas.
Segundo a segunda edição da Pesquisa Nacional da Indústria de Games, da Abragames em parceria com a ApexBrasil, o país tinha 1.042 estúdios ativos em 2022. A própria associação destaca o Brasil como uma das regiões mais promissoras para esse tipo de serviço. A seguir, o que está por trás da tendência e por que ela importa.
O que está mudando?
Durante muito tempo, o sonho de quase todo estúdio brasileiro era lançar o próprio jogo e fazer sucesso. Esse caminho continua existindo, mas é arriscado. O lançamento leva anos, o dinheiro acaba antes do fim e a disputa por atenção nas lojas digitais é enorme.
O desenvolvimento externo oferece outra lógica. Em vez de apostar tudo num único título, o estúdio vende horas de trabalho especializado para empresas que precisam ampliar suas equipes. A receita fica mais previsível, a equipe ganha experiência em projetos grandes e o nome da empresa passa a circular entre editoras e estúdios do mundo inteiro.
Por que o Brasil entrou no mapa?
Três fatores ajudam a explicar o interesse estrangeiro. O primeiro é o talento, sobretudo em arte e engenharia, áreas em que estúdios brasileiros vêm sendo reconhecidos em eventos internacionais do setor. O segundo é o fuso horário, que permite trabalhar em sincronia tanto com a Europa quanto com os Estados Unidos.
O terceiro é o custo. Para empresas estrangeiras, contratar uma equipe no Brasil costuma ser mais barato do que no próprio país, sem abrir mão da qualidade. Murilo Alencar pondera que essa vantagem não deve ser a principal aposta dos estúdios nacionais, porque o preço baixo é fácil de copiar. Reputação e especialização, não.
Os riscos do modelo
Viver apenas de serviço para terceiros também tem armadilhas. Um único cliente grande pode representar quase toda a receita do estúdio, e o fim desse contrato coloca a empresa em crise da noite para o dia. Além disso, a propriedade intelectual dos jogos fica com quem contrata, e não com quem produz.
Por isso, muitos estúdios combinam os dois caminhos. Usam a receita do desenvolvimento externo para financiar projetos próprios, menores e com risco controlado. Na visão de Murilo Moura Alencar, essa combinação permite crescer com estabilidade sem abrir mão de construir uma identidade criativa própria ao longo do tempo.
O que a tendência exige de quem quer participar?
Atender clientes internacionais exige mais do que talento técnico. Exige comunicação fluente em inglês, processos claros de entrega, cumprimento rigoroso de prazos e capacidade de se integrar a ferramentas e rotinas de outras empresas. Para estúdios pequenos, isso costuma significar profissionalizar a gestão antes de crescer a equipe.
Programas de exportação do setor, como o Brazil Games, mantido pela Abragames e pela ApexBrasil, ajudam a levar empresas a feiras internacionais e a aproximá-las de potenciais clientes. Participar dessas iniciativas encurta um caminho que, sozinho, levaria anos.
Uma indústria que amadurece por dentro
O avanço do desenvolvimento externo mostra uma indústria brasileira de games que amadurece de forma menos visível, mas consistente. Cada contrato bem executado forma profissionais, cria processos e constrói a confiança de clientes estrangeiros.
Murilo Alencar comenta que, no longo prazo, essa base técnica e de gestão pode ser justamente o que faltava para que mais jogos criados e assinados por estúdios brasileiros cheguem ao mundo com qualidade e fôlego para competir.

