Pesquisa realizada ao longo de 12 anos revela diversidade escondida de pequenos anfíbios do gênero Rhombophryne e eleva para 27 o número de espécies reconhecidas pelo grupo científico.
Uma pesquisa internacional revelou sete novas espécies dos chamados “sapos-diamante” em Madagascar, ampliando o conhecimento sobre um dos grupos de anfíbios mais peculiares da ilha africana. Os animais pertencem ao gênero Rhombophryne e vivem principalmente nas florestas úmidas de Madagascar, muitas vezes escondidos sob folhas, musgo ou no próprio solo. O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Vertebrate Zoology. (Zoologia de Vertebrados)
A descoberta é resultado de aproximadamente 12 anos de investigação, combinando expedições em florestas, análise de exemplares preservados em museus, estudos anatômicos e técnicas modernas de sequenciamento de DNA. Um dos principais desafios foi justamente diferenciar animais que, externamente, podem parecer quase idênticos. A revisão científica elevou para 27 o número de espécies reconhecidas de Rhombophryne. (Earth.com)
A pesquisa foi liderada por Mark D. Scherz, curador de herpetologia do Museu de História Natural da Dinamarca, ligado à Universidade de Copenhague. Segundo os pesquisadores, a diversidade desses animais permaneceu escondida por muito tempo porque várias espécies passam grande parte da vida sob a camada de folhas e outros materiais que cobrem o chão das florestas. (SNM)
Sete novos sapos entram oficialmente para a ciência
As novas espécies receberam os nomes científicos Rhombophryne quentini, Rhombophryne kilonjy, Rhombophryne kotrobaratra, Rhombophryne mavokely, Rhombophryne maraorao, Rhombophryne sonaliae e Rhombophryne anatiala. Elas apresentam diferenças relacionadas à anatomia, genética, distribuição geográfica e outras características utilizadas pelos pesquisadores para distinguir espécies. (A-Z Animals)
Entre elas está a Rhombophryne mavokely, um pequeno anfíbio encontrado no nordeste de Madagascar. O animal possui pele irregular e pode apresentar coloração que varia entre tons amarelados e rosados. Seu nome deriva do malgaxe e significa aproximadamente “pequeno amarelo”. (A-Z Animals)
Outra espécie curiosa é a Rhombophryne kotrobaratra. Ela possui pernas traseiras particularmente longas e fortes e foi encontrada no nordeste da ilha. Seu nome está relacionado às palavras para “trovão e relâmpago” em malgaxe, uma referência à associação do animal com períodos de chuva e tempestades. (A-Z Animals)
Já a Rhombophryne maraorao possui hábitos de escavação e apresenta um comportamento defensivo curioso: quando ameaçada, pode enrijecer o corpo e as pernas. A diversidade encontrada entre animais pertencentes ao mesmo gênero demonstra como diferentes espécies desenvolveram estratégias específicas para sobreviver nos ambientes florestais de Madagascar. (A-Z Animals)
Por que eles são chamados de “sapos-diamante”?
O termo “diamond frogs”, ou “sapos-diamante”, é usado para os integrantes desse peculiar grupo de anfíbios endêmicos de Madagascar. Apesar do nome chamativo, muitos deles apresentam uma aparência bastante discreta quando observados pela primeira vez.
Diversas espécies possuem predominantemente tons de marrom, o que ajuda os animais a se camuflarem entre folhas, terra e vegetação. Entretanto, algumas escondem áreas coloridas nas coxas e na região inferior do corpo, incluindo tons de laranja, branco e preto. Pesquisadores consideram que essas marcas podem ajudar a surpreender predadores quando os animais são ameaçados. (Phys.org)
As formas corporais também variam bastante. Alguns desses sapos são pequenos, arredondados e especializados em viver escondidos no solo. Outros possuem pernas maiores e podem ocupar ambientes cobertos por musgo, enquanto determinadas espécies apresentam corpos mais robustos e vivem principalmente sobre o chão da floresta. (SciTechDaily)
DNA de animais preservados em museus ajudou na descoberta
Um dos aspectos mais interessantes do estudo foi a utilização de exemplares históricos guardados em coleções científicas. Os pesquisadores empregaram uma abordagem conhecida como “museômica”, que permite recuperar e analisar material genético presente em animais preservados há muitos anos.
O DNA obtido desses exemplares foi comparado com amostras de animais encontrados mais recentemente. A equipe também estudou características externas, estruturas do esqueleto e outros elementos biológicos para determinar quais indivíduos pertenciam às mesmas espécies e quais representavam linhagens diferentes. (A-Z Animals)
Essa abordagem ajudou a solucionar problemas taxonômicos acumulados durante décadas. Alguns nomes científicos antigos eram difíceis de associar corretamente aos animais encontrados atualmente, tornando necessário revisitar exemplares históricos e reconstruir as relações entre diferentes populações. (Earth.com)
Descoberta também acende alerta para conservação
Apesar do aspecto curioso da descoberta, a pesquisa apresenta uma preocupação importante. Os cientistas estimam que 24 das 27 espécies reconhecidas de Rhombophryne podem estar ameaçadas, enquanto duas delas — R. kilonjy e R. matavy — foram recomendadas pelos pesquisadores para avaliação como criticamente ameaçadas. A classificação formal na Lista Vermelha depende da avaliação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). (A-Z Animals)
A situação está diretamente relacionada à vulnerabilidade das florestas de Madagascar. Muitas dessas espécies ocupam áreas geográficas pequenas e dependem de habitats florestais específicos. Desmatamento e fragmentação dessas áreas podem, portanto, atingir populações inteiras de anfíbios que não existem naturalmente em nenhuma outra região do planeta. (Phys.org)
As novas informações já começaram a contribuir para iniciativas de conservação. Segundo os relatos sobre o estudo, algumas das espécies recém-reconhecidas foram consideradas em discussões realizadas em março de 2026 dentro dos esforços de Madagascar relacionados à iniciativa de biodiversidade 30×30, voltada à ampliação e planejamento de áreas protegidas. (A-Z Animals)
Madagascar ainda pode esconder outras espécies
Os sete novos sapos também demonstram quanto ainda permanece desconhecido sobre a biodiversidade de Madagascar. Quando Mark Scherz começou a trabalhar com o gênero há cerca de 12 anos, eram reconhecidas aproximadamente dez espécies. Novas expedições e análises posteriores revelaram que a diversidade era muito maior. (Earth.com)
Mesmo após a revisão que chegou às atuais 27 espécies reconhecidas, os pesquisadores indicam que ainda existem candidatos que poderão ser formalmente descritos no futuro. Isso significa que a quantidade real de espécies de sapos-diamante pode continuar crescendo à medida que novas regiões forem estudadas e técnicas genéticas forem aplicadas a exemplares já existentes em coleções científicas. (Zoologia de Vertebrados)
A descoberta transforma pequenos animais escondidos sob folhas e terra em protagonistas de uma questão científica muito maior. Encontrar, identificar e nomear uma espécie permite determinar sua distribuição e avaliar melhor os riscos que enfrenta. No caso dos sapos-diamante de Madagascar, uma investigação que começou há mais de uma década revelou não apenas sete novas espécies, mas também um patrimônio evolutivo que pode precisar de proteção antes mesmo de ser completamente conhecido.
Fontes
Vertebrate Zoology — estudo científico completo
Natural History Museum of Denmark — Scientists discover seven new frog species in Madagascar
Phys.org — Seven new diamond frog species reveal Madagascar’s hidden amphibian diversity
Earth.com — Scientists discover seven new species of elusive diamond frogs

